sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Ilusões


·      Achar que os pais eram todos perfeitos: eles fortes e Infalíveis, as mães incondicionalmente amorosas. Mas meu pai chorou quando sua mãe morreu, e Certa vez me botou de castigo sem que eu tivesse culpa. Fiquei inquieta: se ele podia ser fraco ou errar, quem iria para Sempre cuidar de mim? Escutei, mais de uma vez, minha mãe se queixar: "Essa Menina me leva à loucura, por que não é parecida com o Irmão, tão bonzinho?” (ela devia ter dito algo parecido com “ela é um saco", só que naquele tempo a expressão não se Usava. Fiquei perturbada imaginando que ela jamais gostaria de Mim tanto quanto visivelmente gostava dele. Pensar que os adultos sabiam de tudo: eu tinha uma Inveja mortal deles. Mas diziam coisas como: "criança não“ Pensa”, ou "quem ama Deus faz sofrer", e percebi que eles Também eram meio burros. Além disso, achei que eram melhores Do que as crianças, mas às vezes queriam que eu mentisse: "Não conta pra sua mãe que quebrei esse copo ou ela fica “Zangada comigo”; "não fala pra vovó que a mamãe visitou“ Aquela titia, senão a vovó fica aborrecida”. Sonhar que as princesas dos contos de fadas eram lindas, E seus namorados uns guerreiros fantásticos, todos morando Em castelos encantados. Depois li em algum livro (não de fadas) que as jovens Medievais cedo ficavam desdentadas, os guerreiros morriam Ainda adolescentes de doença ou na guerra, que não se Tomava banho, e as donzelas faziam xixi de pé, apenas Arrepanhando um pouco as saias. Achar que era verdadeira a inscrição da caixinha de lápis: "Querer é poder." Eu queria acordar morena, magra e linda Como uma colega de classe que nem ao menos era muito Inteligente, mas continuei sendo apenas a que podia ser. Também queria milagrosamente receber o boletim Melhor da turma, e cheguei a um 28º lugar, que falsifiquei Transformando num patético 230, como se assim minha honra Estivesse salva. Imaginar que os gnomos arrumavam durante a noite Meus sapatos - que eu deixava tortos ao lado da cama -, e O anjo da guarda de carinha suspeitamente feminina sempre ia cuidar de mim. Mas os gnomos não apareciam quando havia mais Alguém presente, de modo que nunca pude provar que Existiam. E meus sapatos, era minha mãe que aleitava quando eu Pegava no sono. Pois de outro modo, ela dizia, eu teria Pesadelos: correr e Não Sair do lugar, e ser alcançada fácil pelo Monstro que me perseguia. (Como eu era sempre devedora, estava certa de que o Monstro me devoraria logo-logo se não fossem aqueles sapatos (Comportadamente alinhados.). Achar que bastava rezar, e Deus, o das barbas brancas e Carranca furiosa dos bicos-de-pena da Bíblia para Crianças, Do alto das nuvens me faria ser o modelo de menina que Minha mãe e avós tanto queriam. Depois de algum tempo cansei de rezar. Olhava pra Cima, pensando: Deus me ajuda um pouco, tá? Afinal eu Bem que me esforço, mas sabe como e... Acreditar que bebê era trazido pela cegonha, e um dia Alguém na escola falar qualquer coisa de pai e mãe... Havia Um complicador de caninho de borracha, que, aliás, nunca Entendi. Seja como for, depois do choque fiquei um pouco Aliviada: os meus pais, pelo menos, só tinham feito aquele Horror duas vezes. Ah, três vezes: um irmãozinho tinha morrido antes de eu Nascer. Sonhar que quando adulta eu seria segura de mim, Nunca mais carente dona do meu nariz, linda, rica e Poderosa. Deitada num sofá, comendo chocolates (e sendo magra), Com dúzias de servas pra me atender. Nunca imaginei que haveria (além das tantas coisas boas) Essa história de trabalho, horários, compromissos, conta de Banco, doença, fracassos, frustrações, o escambau Mas, se tudo hoje fosse como parecia nas minhas ilusões De menina, eu provavelmente passaria boa parte do meu Tempo olhando pela janela, não para ver as árvores ou as Nuvens, mas bocejando na prisão da excessiva coerência

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